Thursday, 18/04/2024 - 15:23
22:37 | 26/06/2019
Houve, uma vez, uma mulher que tinha um filho, o qual desejava, imensamente, viajar e conhecer o mundo. A mãe, porém, disse-lhe:
– Como podes viajar? Somos pobres e não temos dinheiro algum que possas levar.
O filho insistiu, dizendo:
– Eu me arrumarei. Vou dizendo sempre: “não muito, não muito, não muito.”
Assim, despedindo-se da mãe, foi-se embora, Perambulou durante algum tempo, dizendo sempre: “não muito, não muito, não muito.”
Um belo dia, encontrou um grupo de pescadores ocupados no trabalho. Aproximou-se deles para ver o que faziam e disse:
– Deus vos ajude! não muito, não muito, não muito.
– Por que dizes “não muito,” seu patife?
Os pescadores puxaram as redes neste instante e viram que nada tinham pescado. Então, furiosos, surraram valentemente o rapaz, ao mesmo tempo que diziam:
– Nunca viste como se debulham espigas?
– Que devo dizer então? – perguntou o coitado do rapaz.
– Deves dizer: pega bastante pega bastante!
Ele continuou a perambular mais algum tempo sempre repetindo: “pega bastante, pega bastante”; e assim aconteceu-lhe passar junto de uma forca, justamente no momento em que estavam enforcando um malfeitor. Parou para olhar e disse:
– Bom dia! Pega bastante pega bastante!
– O quê! por que dizes isso: “pega bastante pega bastante,” seu malandro? Então já não chegam os patifes que existem no mundo; queres mais?
E agarrando-o, deram-lhe uma tremenda surra.
– Ai, ai! Que devo dizer então? – choramingou o pobre rapaz.
– Deves dizer sempre: Deus tenha piedade de sua pobre alma!
O rapaz prosseguiu o caminho e ia repetindo: “Deus tenha piedade de sua pobre alma, Deus tenha piedade de sua pobre alma!” e chegou a um valo onde um homem acabava de matar um cavalo. O rapaz ficou olhando e depois disse:
– Bom dia! Deus tenha piedade de sua pobre alma! Deus tenha piedade de sua pobre alma!
– Que é que estás dizendo aí seu maroto? – e, pegando no chicote, bateu-lhe tanto que o deixou cair atordoado no chão.
– Mas que devo dizer então? – perguntou o infeliz.
– Ora, deves dizer: tomara que caias num valo, carniça!
Ele foi para diante; ia andando e repetia: “tomara que caias num valo, carniça!”
Nisso passou um carro cheio de gente; olhando para ele, disse mui seriamente:
– Bom dia. Tomara que caias num valo, carniça!
E o carro, subitamente, caiu dentro de um valo fundo, com gente e tudo. Então o carroceiro pegou no chicote e espancou, impiedosamente, o pobre rapaz, até vê-lo escorrendo sangue e caído no chão.
Em vista disso, o coitado não viu outra solução se não voltar para a casa de sua mãe. E, nunca mais, durante toda a sua vida, teve vontade de viajar.

 



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